Dê uma chance à técnica

03 de junho de 2008, por Carlos Fernando Maggiolo

Aqueles que passam uma vida ensinando novos bateristas a aprender a arte dos tambores, acabam sendo brindados com uma visão panorâmica e madura de tudo que se passa no mundo das baquetas – sobretudo quando se debruçam com amor e se dedicam de corpo e alma a essa verdadeira ciência. Esses conseguem captar até mesmo os fenômenos sociais que ocorrem no nosso cotidiano. São essas vozes que devemos escutar – vozes autorizadas porque sacrificaram suas vidas em prol da arte e são os responsáveis pela sua perpetuação. São essas vozes que lá do topo da montanha podem nos dar o caminho das pedras, sem mistério, sem risco, porque têm uma visão privilegiada – que nós, daqui de baixo, não enxergamos.

Muito bem. Publiquei um tópico despretensioso em “Aulas e Estudos” sobre “Resistência à Técnica” que chamou a atenção de alguns professores, inclusive do Magoo, que em sua resposta nos trouxe um outro fenômeno social, tão curioso quanto o objeto deste pequeno discurso, que faço questão de transcrever como um preâmbulo ao nosso tema, mas que por si só já merecia muitas discussões, in verbis:

“Esta sua colocação foi realmente formidável. Grande parte do pessoal que começa a se envolver com arte passa por esta situação e não sabe o porque. Vejo muito isso entre os meus alunos. Outro aspecto que eu reparei é o que podemos chamar de "síndrome de festival". Quando rola algum evento tipo Hollywood Rock ou Rock'n'Rio, o pessoal fica desesperado para "ser" igual aos "caras do palco". Em outras áreas também rola isso. Quando lançam um filme tipo Rock IV, as academias ficam lotadas. Todo mundo aqui do fórum deve ter visto um caso destes”.

O texto do nosso amigo dispensa comentários. É completo, claro e objetivo. É um fato curioso que nunca havia chamado a minha atenção (essa é uma visão privilegiada – própria daqueles que observam do topo da montanha), mas tenho certeza, será fonte inspiradora de reflexão de muito por aqui e, esse é o objetivo.

Pois bem, vamos ao nosso assunto. Na minha aula com o Sérgio Conforti na semana passada, ele comentou a resistência de alguns alunos em aderir à técnica, a falta de paciência e interesse pelo estudo. Começamos a conversar e, também pudera, as revistas exaltam o batera que é autodidata; isso é um mal exemplo. Claro que o cara que aprende tudo por si só tem um valor inestimável, mas pra que sofrer? Para que tanto tempo pra aprender correndo o risco de aprender errado e viciar no erro?

Fiquei pensando nisso...

Normalmente o cara entre os 10 e 20 é que resiste. Por que?

Muitos procuram a batera como um grito de revolta ao colégio, ao sistema e procuram um refúgio nas artes, como se fosse um outro mundo, sem compromisso com nada. Quando precisam de algumas ferramentas para progredir deparam com a técnica e com a partitura - e criam resistência. É porque na mesma hora, inconscientemente, o aluno faz o link com o colégio, com o mundo da escravidão (na juventude o colégio, na vida adulta o trabalho) e já tem aquele preconceito. Outros não sabem o que querem. Na música os pais não têm como controlar o amadurecimento na arte. Por ser um projeto pessoal os pais também não levam a sério e não cobram, criando um campo livre para os garotos ficarem ‘coçando’ ... sem estudar. Outros ainda, precisam de estímulo. Gostam da batera mas fazer sacrifício de estudar é demais. Ainda tem aqueles que buscam na bateria um up-grade para sua própria imagem - no contexto social em que se encontram. Acham que o fato de serem bateristas chama a atenção das gatinhas...fica bem na fita com os amigos...enfim...assumem uma personalidade “pra frentex”. Se crêem músicos – livres dos preconceitos, dos dogmas e postulados dessa vida cinzenta do cotidiano urbano. Nessa onda, ainda tem aqueles infelizes que misturam droga e música, como uma forma de justificar a fraqueza do espírito - como se a sede do espírito por um baseado ou uma carreira de pó buscasse inspiração na música. Coitada da música! Para todos esses a música é uma desculpa ou uma fuga. Esses não conseguem se criar na música – e depois, quando crescem, culpam o mercado, o Brasil, as gravadoras, os dirigentes da televisão brasileira... Amigos, têm muitos que não conseguem tocar um tamborim direito e querem vencer como bateristas – no país do futebol e da bateria.

Para essas figuras, se não fosse a música seria outra arte ou outra ciência a responsável pelo seu insucesso na vida, quando, na verdade, a culpa é dele próprio. A música não é diferente dos outros ofícios e profissões. Estamos todos dentro de um mesmo contexto.

Em qualquer arte ou ofício temos que ser os melhores para encontrarmos nosso lugar ao sol. O que tem de comum entre a vida escolar e a técnica da bateria é que ambas têm que ser levadas a sério. Dispa-se você – do preconceito. Não confunda os dogmas da química, da biologia e da álgebra com os da música. Não têm nada em comum - só a seriedade. Como em qualquer profissão, para sermos bons temos que dominar a técnica do ofício que nos propomos.

Pois bem galera, batera é um mundo à parte. Se você gosta leve a sério. Somos um país privilegiado no que diz respeito ao mundo dos tambores e temos que continuar a produzir boas safras. Somos o celeiro da música quebrada, latina. Estude sim. O estímulo vem com o tempo, com o resultado na própria batera. É um estudo diferente. O resultado é prático e a curto prazo. É apaixomante! Dê uma chance à técnica. Você vai se surpreender!!! 

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