Edni Devay e Eddie Cameron são dois músicos e professores nascidos na Bahia que já tem mais de duas décadas atuando no mercado profissional de musica. Eddie Cameron é dentre outras coisas responsável pela formação de muitos bateristas e percussionistas que atualmente estão acompanhando bandas e artistas renomados espalhados pelo mundo a fora. Edni Devay desde que concluiu o curso de licenciatura em musica em 1996 na Universidade Católica de Salvador, leciona em conservatórios de musica e escolas de ensino regular na cidade de Salvador – BA, acompanhou vários artistas e bandas em shows pelo Brasil e no exterior, além de atuar em estúdios participando de gravações, produzindo e fazendo arranjos para discos, jingles publicitários, trilhas para teatro e para vídeos.

Especial Batera: Dia do Folclore

22 de agosto de 2014, por Edni Devay e Eddie Cameron
Hoje é o dia nacional do Folclore, mas você pode estar perguntando a si mesmo: Na prática, será que vou aprender algo com o Folclore para aplicar no meu instrumento?

O fato é que, muitas das informações que utilizamos nos dias de hoje na nossa formação cultural (musical), principalmente na prática dos instrumentos de percussão e bateria, vem de muitos e muitos anos. É fundamental que tenhamos a consciência de salvaguardar e preservar esse “tesouro” que é a nossa cultura popular.

O ritmo está presente nas culturas há milhares de anos como elemento fundamental para música, além de ser também um elemento primário da experiência humana que faz parte da consciência motriz e da dinâmica que envolve ação e movimento. 

A nossa cultura brasileira é resultado da mistura dos costumes de diferentes povos que por aqui passaram e deixaram suas influências as quais manifestamos até os dias de hoje nas artes (música - dança), na culinária e em outros hábitos e costumes do cotidiano do nosso povo. Influências estas, que se perpetuam e se mantém vivas devido à transmissão desses costumes de geração para geração.

Porém, quando a transmissão destas informações são passadas de maneira informal através da oralidade, por exemplo, corremos o risco de ocasionar e fomentar dúvidas ao longo do tempo, o que é bastante natural. A informalidade acaba gerando uma vulnerabilidade na informação que de geração em geração pode vir a sofrer uma ou outra “distorção”, o que desvirtua ou altera a origem desta.

Vamos então falar do nosso universo rítmico, que muito interessa para nós que tocamos bateria e/ou percussão. É muito comum encontrar músicos com dúvida na definição da nomenclatura, assim como na execução do ritmo do Ijexá.

Vamos citar agora um exemplo muito comum sobre “distorção” na informação que observamos com frequência quando falamos deste ritmo tradicional da nossa cultural rítmica popular que herdamos da cultura africana e que, infelizmente, ate hoje muita gente ainda confunde e se atrapalha chamando o Ijexá de Afoxé.
Afoxé é um termo africano de origem Ioruba que denota “festa profano-religiosa”, estas festas tem o Ijexá como ritmo que marca e caracteriza a música e a dança durante as manifestações populares. Temos então duas palavras com significados diferentes e, por tanto, não está correto utilizar o termo Afoxé para reportar ou referir-se ao ritmo do Ijexá.

Mesmo sendo de origem africana, o ijexá é um ritmo que encontramos arraigado ou enraizado na nossa cultura popular brasileira. Ritmo suave, de batida cadenciada que é executado por instrumentos de percussão como os atabaques, dentre outros. A principal característica deste ritmo/estilo vem da execução de outro instrumento de percussão chamado “gã”, muito conhecido também como agogô. O agogô é formado por duas campânulas de metal, com mesmo timbre e sonoridade de altura diferente que dita o ritmo aos demais instrumentos devido ao fato dele executar um ostinato rítmico - melódico extremamente marcante.

Ainda em relação ao ritmo do Ijexá, outra “distorção” na informação que acontece de forma constante entre os músicos, é o fato de executar o ostinato do agogô iniciando o ciclo do timbre agudo e não do grave como deve ser feito. Isso implica diretamente na execução dos demais instrumentos e compromete a orquestração do Ijexá como um todo.
 
 
*Ostinato executado pelo Agogô no Ijexá (timbre grave – abaixo da linha, timbre agudo – acima da linha).

Os ritmos da nossa cultural popular brasileira de uma forma geral têm origem nos batuques que vêm dos instrumentos de percussão e que na maioria das vezes são adaptados para serem executados na bateria. O Ijexá assim como o Baião, o Samba, dentre outros ritmos, seguem este mesmo caminho.

No Brasil, o Ijexá ao longo do tempo recebeu influências populares e profanas que foram agregadas aos costumes tradicionais de sua origem africana, o que proporcionou uma nova forma de executar e interpretar o ritmo.

Além dos instrumentos tradicionais de percussão que caracterizam este ritmo ou estilo, ao longo do tempo foram sendo inseridas novas informações, novos instrumentos com timbres diferenciados como, por exemplo, o surdo ou marcação que passou a dar uma base rítmica mais consistente devido ao timbre grave que estes instrumentos possuem. Isso aconteceu devido a uma necessidade durante as festas profanas como o carnaval, onde a baixa frequência que o surdo proporciona, atendia a uma necessidade de encontrar um timbre que tornasse a base do ritmo menos vulnerável a oscilação de andamento, fazendo com que, durante a festa, a base do ritmo estivesse com mais estabilidade e regularidade. Então quando o Ijexá foi adaptado para ser executado na bateria, o bumbo passou a desempenhar o papel dos surdos que foram inseridos ao ritmo original do Ijexá.
 
 
*Linha superior – ostinato do Agogô / Linha intermediaria célula rítmica do Bombo / Linha inferior – unidade de tempo sendo executada com o chimbal tocado com os pés.

Outro exemplo nítido de influências vem do ritmo chamado Baião, que surgiu com base na visualização de uma dança de nome “Baiano”. Esse gênero musical foi criado pelo eterno Luiz Gonzaga ou Gonzagão, como era também chamado. É possível perceber que a música esta ligada ao ritmo, os gêneros musicais levam na sua nomenclatura e são pronunciados pelo nome dos ritmos que na maioria das vezes são criados por influência dos costumes e/ou de comportamento coletivo dentro de cada região. 

Ainda com relação ao Baião, podemos destacar que, Gonzagão tinha o costume de utilizar na sua música uma formação instrumental que deu origem ao trio chamado “Pé de Serra”, composto pela zabumba, triângulo e sanfona. Desta forma, o baterista utiliza a referência dos timbres e das divisões rítmicas dos instrumentos de percussão (triângulo e zabumba), para fazer uma adaptação e compor a execução na bateria deste gênero típico do nordeste brasileiro, que se consolidou através da transmissão dos costumes do povo desta região.

Nas letras das suas músicas, Luiz Gonzaga geralmente traz na melodia uma divisão dentro da rítmica que sempre retrata a realidade, as emoções, as alegrias, as conquistas e os lamentos do povo nordestino. Gonzaga não se restringiu em utilizar apenas a linguagem musical para transmitir e retratar os costumes do povo da sua região, também se valeu de uma indumentária típica do vaqueiro nordestino da Caatinga para revelar a verdadeira identidade do seu povo.

Chegamos à conclusão de que, apesar dos acréscimos, dos decréscimos, e outros tipos de alterações que propiciam às “distorções” da informação, é extremamente importante que possamos perpetuar a nossa cultura popular para que as próximas gerações não fiquem limitadas e restritas a esta importantíssima fonte de conhecimento.

VIVA O FOLCLORE BRASILEIRO!

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