Bruno “Gafanhoto” Souza é incansável na busca por aperfeiçoar sua música. Depois de se graduar pela Universidade de Brasília em Música – Licenciatura, se mudou para os Estados Unidos em Agosto de 2011 para começar Mestrado em Drums Jazz Performance na University of Louisville, concluído em Maio de 2013 com apenas 24 anos de idade. Fez cursos com Jason Tiemann, Kendrick Scott, Edu Ribeiro, Rafael Barata, Kiko Freitas, entre outros, e já dividiu palco com Harry Pickens, Gene Perla, Miami Sax Quartet, Brandon Coleman Quartet, Luke McIntosh Sextet, entre outros, além de ser líder e diretor musical do octeto instrumental FUNQQUESTRA, que tem duas baterias juntas na formação.

Formal vs Informal

19 de fevereiro de 2014, por Bruno "Gafanhoto" Souza
Hoje o post é um pouco longo. Mas se você tiver um tempinho, senta aí que esse papo é importante.

Desde que comecei essa coluna mensal no Batera.com.br (coincidentemente, o mesmo tempo desde que voltei do meu mestrado nos Estados Unidos), muita gente veio me perguntar sobre como foi minha experiência em todo esse tempo (contando também a graduação) dentro de universidades e qual minha opinião sobre o ensino formal vs ensino informal vs mercado de trabalho, bla bla bla...

Pois bem, 2014 começando e muita gente fazendo planos, então acho que é uma boa hora pra falar um pouco sobre o que eu acho sobre tudo isso.

Vou me pegar como exemplo. Resumindo: comecei a tocar bateria aos 11 e desde uns 15, quando comecei a pensar realmente no que eu queria fazer do meu futuro, decidi que iria viver de música. Ter na música a minha “única” profissão. Depois de algumas tentativas de proibições por parte dos meus pais (não tá fácil pra ninguém, rs...), finalmente consegui burlar os velhos (Beijo, pai! Beijo, mãe!) e convencê-los de aquele pirralho estava fazendo uma escolha correta e, mais importante, iria trabalhar muito e de todas as formas que pudesse para alcançar uma boa vida, monetariamente falando, fazendo música. Foi ali que rolou o “start”, onde eu realmente comecei a pensar em minha “carreira”.

Decidi olhar em volta e observar os caras que eu admirava. Dos vários que vieram à minha cabeça, dois ainda hoje servem de referências para mim: Renato Vasconcellos e Marcelo Barbosa.

(Vários de vocês já devem ter ouvido falar deles. Se não, dá um google, que os caras não estão pra brincadeira não...)

Vou resumir de novo: Renatão é um dos meus “pais” na música. O conheci quando estava na graduação na UnB e ele foi um dos professores que me incentivou a enveredar no caminho do jazz e música brasileira, minhas maiores paixões hoje. Foi um dos maiores incentivadores para eu fazer o meu mestrado em Jazz Performance que, inclusive, fiz na mesma universidade onde ele mesmo o fez.
O Barbosa é outro parceirão. O conheci mais ou menos na época que relatei lá em cima e, tempos depois, tocamos por mais de 2 anos na mesma banda. O cara sempre foi pra mim uma referência de empreendedorismo na música, de trabalho, de alcançar um destaque não apenas com o instrumento nas mãos, mas também em todos os aspectos que norteiam uma “carreira”.

E porque tô contando tudo isso? Por que acho que conviver com esses dois caras me deu uma visão ampla do que eu poderia fazer com minha música. Os dois são exímios instrumentistas, mas um deles também tem uma carreira de respeito dentro da academia, enquanto o outro também tem uma carreira de respeito fora da academia.

Eu decidi tentar juntar as duas coisas no mesmo pote.

Podem falar o que for, mas eu adoro a academia. Estar por 4 anos na Universidade de Brasília e depois 2 anos na University of Louisville foi a melhor experiência que já tive. Aprendi pra caramba, convivi com gente muito talentosa, ouvi muito, vi muito. E, mais importante, tive que correr atrás. Sim, toda universidade ou escola tem os mesmos defeitos do “sistema”: alguns professores picaretas, alguns trabalhos que talvez não sirvam tanto para seu futuro. Porém, não tem nada como se sentir com a corda no pescoço e ter que entregar algo pronto em uma data, só pra te dar aquele chute na bunda e te fazer trabalhar como gente grande. Isso, pelo menos pra mim, quem me ensinou foi a universidade.

Por outro lado, nada como estar na noite. Nada como as pendengas de tocar regularmente e ter que conviver com pedido de música, bêbado chato, público cantando, vender o seu peixe, etc., etc., etc... Nada como ter que ser o seu próprio produtor. Organizar seus shows, divulgar material, promover aquele burburinho em volta do que você faz... Nada como aquele frio na barriga de estar tocando e ver aquele cara que é referência te vendo tocar. E nada como, depois, estar lá embaixo olhando algum cara muito bom no palco e tentar sugar todo o conhecimento que você puder sem nem trocar uma palavra com o cidadão.

Para mim, foi assim que funcionou. Eu quis entrar na academia. Acima de tudo, eu aprendi a gostar da academia. Ao mesmo tempo, eu quis estar na rua, e também adoro isso. Decidi levar até onde eu puder o formal e informal, e quando eu tiver que soltar um pra me dedicar mais ao outro, assim o farei.

Na real, eu tenho só 25 anos (acredito que também seja a idade de vários de vocês que estão lendo). Ainda estou no meio do processo, longe de chegar onde as minhas referencias lá de cima chegaram. Tenho curiosidade pra saber exatamente como foi com eles, as escolhas que eles fizeram. E é por isso que quis escrever isso aqui, porque eu também ainda tô andando nessa rua, como vocês.

Então quando me perguntam se eu acho que é importante estar numa universidade, se eu acho importante estar na rua, se estar na academia influencia no quanto se toca na noite, ou se tocar na noite influencia entrar na universidade, eu respondo: PRA MIM, sim. Tá tudo junto, nunca pensei nisso separado. Mas, se você achar diferente, boa sorte!
O mais importante é se manter em movimento, trabalhar de verdade, e, acima de tudo, saber onde você quer chegar. Mas, particularmente, acho que hoje em dia o mundo tá meio cruel para nos apoiarmos demais em uma coisa só. Acho legal carregar o máximo que puder e ir eventualmente soltando algumas coisas no meio do caminho, se o peso ficar demais. No mínimo, você vai aprender pra caramba. E é óbvio que não pode perder o foco, esse post é exatamente sobre o contrário disso.
“Música, como a vida e como você, é uma entidade que se expressa através de suas diferenças. Música é algo por si só, mas ela não existiria sem as suas partes. Você não consegue tocar um acorde sem notas diferentes. Mude uma nota, mudou o acorde. Na vida não é diferente, e nem você. Você está se expressando na vida escolhendo diferentes notas o tempo inteiro. Aprenda a ser consciente das suas escolhas que a vida te responderá com o acorde apropriado”. Victor Wooten – “The Music Lesson”.

Até o próximo mês!

Bruno Gafanhoto
 

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