Nascido em Brasília-DF, Acácio Carvalho começou a tocar bateria aos 9 anos de idade. Estudou na Escola de Música de Brasília e lecionou nas principais escolas de música da cidade, incluindo o Instituto Bateras Beat. Fez parte de bandas como "Dark Avenger" e "Vougan",as quais lhe proporcionaram exposição internacional. Em 2009 se mudou para os EUA e deste então vem gravando e se apresentando com bandas e artistas ao redor do mundo.

Segredos de estúdio

13 de agosto de 2012, por Acacio Carvalho
Segredos de estúdio

Olá galera!

As pessoas sempre me perguntam como conseguir aquele som pesado de bateria, com pressão, pegada, agressividade e como dizem por aqui, “in your face”. Desta vez resolvi compartilhar alguns segredos que podem te colocar no caminho certo para uma gravação da qual você se orgulhe posteriormente. Não vou escrever muito a respeito do lado estritamente técnico do instrumento ou da gravação em si, mas vou tentar explicar alguns conceitos gerais que você poderá usar para achar o seu próprio caminho neste universo das gravações. Antes de se aventurar neste caminho da produção musical, você precisa ter consciência de que está se aventurando por um caminho que é tão vasto e desafiador quanto o caminho que você decidiu seguir quando começou a tocar o seu instrumento. Existem inúmeras alternativas para se chegar ao mesmo resultado, portanto tenha sempre em mente que as opções e ideias que eu vou compartilhar aqui são alternativas que funcionam para mim em 99% dos casos, porém podem não ser as mais apropriadas para todas as situações que você irá encontrar em estúdio. Vale lembrar também que estas ideias são úteis para situações onde você precisa gravar a bateria por conta própria em estúdio, se houver um produtor presente ele provavelmente trará todas estas ideias a tona de qualquer maneira.

- GRAVE SAMPLES DE CADA PEÇA DA BATERIA

Antes de começar a gravar qualquer música, é extremamente importante que você grave samples de todas as peças da bateria para edição antes da mix. Quase todas as produções modernas são gravadas desta forma, são compilações de vários takes diferentes, com elementos sobrepostos e dezenas de camadas de áudio. Você precisa fazer uso da tecnologia para gastar menos tempo em estúdio e conseguir melhores resultados. Se você acabou de gravar uma parte extremamente difícil, levou vários takes para conseguir fazer aquele groove respirar do jeito que você queria, e então percebe que um dos rimshots não soou tão bem quanto os outros, você pode simplesmente recortar um rimshot que gravou anteriormente e colar no lugar daquele que falhou. Se lembre, no estúdio você está tentando gravar uma performance que passe a mesma mensagem musical para a maioria dos ouvintes, portanto o importante ali é fazer com que a mensagem seja clara, se você precisar gravar o mesmo groove vinte vezes para conseguir a atmosfera que estava buscando, que seja assim.

- POSICIONAMENTO DE MICROFONES

Se você grava Rock, Metal, Pop ou outros estilos onde a bateria é mixada na frente da música, quase junto com o vocal, você vai precisar gravar com microfones em todas as peças do instrumento. Na hora da mix isto ajuda muito porque cada elemento da bateria pode ser ajustado separadamente, dando muito mais controle para quem for mixar. Porém, se a microfonação não for feita corretamente, você vai gerar mais problemas do que ajudar a mix. Com relação a timbre, de uma forma geral, se você direcionar o microfone para a borda da pele, o resultado será um som mais “macio”, rico em harmônicos. Se o microfone for direcionado para o centro do tambor, você vai obter mais ataque e menos harmônicos. Você precisa tomar bastante cuidado quando microfonar os pratos, principalmente com overheads, para evitar conflitos de fase entre os microfones. Nos pratos específicos, como chimbal, por exemplo, quanto mais perto da borda você direcionar o microfone, mais grave e metálico o som vai se tornando. Eu costumo apontar o microfone para uma região entre a borda e a cúpula, elevado cerca de cinco a dez centímetros do prato, desta forma o som é mais brilhante e um pouco menos metálico. Para captar o som da sala, geralmente eu uso um microfone condensador posicionado cerca de 3 metros a frente da bateria, a aproximadamente um metro do chão. Desta forma eu consigo um grave vindo dos bumbos que os outros microfones não captaram, e posso usar este microfone para “engordar” o som da bateria na mix. Os overheads eu uso praticamente para captar os pratos isoladamente, tentando captar o mínimo possível do som da sala. Tenha certeza de que nenhum microfone está captando exatamente os mesmos elementos, ou você vai tentar problemas de fase. A exceção são os microfones da caixa, geralmente eu uso um microfone na pele de ataque e outro na pele de resposta, ambos vão captar frequências muito parecidas, portanto é inevitável que haja algum tipo de cancelamento de fase entre os dois microfones. Para resolver este problema, eu inverto a fase do microfone da pele de resposta durante a mix, assim menos frequências se cancelam e o som da caixa fica um pouco mais cheio.

- USE PELES NOVAS

É inacreditável a diferença que faz um set de peles novas em uma gravação. Pelo fato de serem novas, as peles vibram da maneira que devem vibrar e os microfones captam muito mais detalhes do som desta maneira. Se lembre de que o seu ouvido não capta as mesmas frequências que os microfones. Alguns microfones captam frequências que o ouvido humano não é capaz de ouvir, mas é capaz de sentir. Um exemplo disto são os bumbos, principalmente em música pop. Você consegue sentir onde eles estão na música, mas não tão claramente como você percebe a caixa por exemplo. Isto se dá pelo fato dos bumbos terem suas frequências fundamentais entre 50hz e 80hz, estas frequências estão perto do limite mais baixo que o ouvido humano consegue captar, portanto você sente estas frequências mais do que as ouve. Peles novas vibram mais livremente, permitindo que tais frequências tenham mais energia e os microfones captem estes detalhes com mais ênfase.

- SEJA CRÍTICO E BRUTALMENTE HONESTO COM VOCÊ MESMO

Quando eu finalizo um trabalho e ouço o resultado depois de algumas semanas, eu invariavelmente gostaria de mudar pelo menos 60% do que gravei, tanto no que diz respeito à performance quanto produção. Depois de conversar com vários outros músicos que trabalham da mesma maneira, percebi que isto é algo um tanto comum. Isto é essencial para o desenvolvimento das suas habilidades, é um sinal de que sua criatividade não tem descanso e que você está sempre buscando por uma maneira de melhorar a qualidade do que faz, mas assim como todos os outros aspectos do seu trabalho, você precisa aprender a dosar. Você precisa aprender quando é a hora de deixar o projeto do jeito que está e entregar o trabalho para que os outros processos possam começar. Se você é como eu, vai encontrar coisas para arrumar a cada vez que ouvir uma gravação, sempre tem alguma coisa que poderia melhorar, e isto não tem fim. Você precisa aprender quando é a hora de “abandonar” o projeto e entregar exatamente como ele está. Pode levar alguns anos para você aprender a dosar a crítica pessoal com relação ao seu trabalho, mas com o passar do tempo você vai perceber mais claramente quando uma música está “pronta” e não precisa de mais nenhum elemento ou ajuste.

Estas são somente algumas ideias para você entrar e sair do estúdio com um resultado mais próximo daquele que você imaginou. Apesar deste universo da produção musical ter um aspecto um pouco mais técnico do que a criação musical em si, ele ainda tem uma grande fatia de subjetividade, e é isto que torna tudo mais interessante. Assim como na criação, não existe um único caminho, muito menos “certo” e “errado”, você precisa confiar no seu instinto e nos seus ouvidos para conseguir o resultado que busca.

Um grande abraço a todos!

Acacio Carvalho

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