Bate-papo com Daniel Podsk e seu "Jazz internacional Pernambucano"

16 de outubro de 2015, por Rafael Ferraz
Nascido no interior de Pernambuco, em novembro de 1985, o baterista e percussionista Daniel Podsk é o novo entrevistado do site Batera. Seu primeiro disco solo, Relembrando PE (independente), foi lançado em junho de 2015, com releituras de compositores, em sua maioria, conterrâneos - Egildo Vieira, Luiz Guimarães, Edson Rodrigues, George Aração, Fred Andrade, Tiago Mota, Riva Le Boss e Amaro Freitas - reinterpretados em ritmos como o forró de terno de pífano, frevo, gafieira, maracatu e samba-jazz com arranjos de Jazz.

Compartilhando produções em plataformas como YouTube, como parte da divulgação do trabalho, o músico lança hoje, 16 de outubro, com exclusividade no site Batera, o vídeo gravado ao vivo no último dia 24 de setembro, no Teatro BNDES, Rio de Janeiro (RJ) [Assista abaixo]. Mostrando na prática como funcionam esses arranjos e suas possibilidades de execução, o time do show é o mesmo do CD, assinado por Daniel Podsk Quartet - Bráulio Araujo, contrabaixo acústico; Vasconcelos Jr., trompete; Amaro Freitas, piano; e o Daniel, na bateria.

Com diversas participações especiais, o material independente e custeado pelo próprio músico, revela uma influência jazzística que é mesclada de forma natural à essência dos ritmos pernambucanos. Com sonoridade e timbre de instrumentos acústicos, foi gravado no SevenLife Estúdio, em Olinda, e Casona Estúdio, em Jaboatão dos Guararapes. 


Daniel Podsk teve seu primeiro contato com o instrumento em bandas marciais aos 8 anos. Já aos 12, surgiu a primeira experiência com a bateria, quando começou a paixão pelo instrumento e iniciou os estudos no CEMO - Centro de Educação Musical de Olinda no ano 2000. Em 2005 passou a estudar no Conservatório Pernambucano de Música, tendo como disciplina percepção, teoria, solfejo e bateria. 

É músico profissional desde os 18 anos de idade (OMB) e atualmente cursa graduação em Práticas Interpretativas da Música Popular - IFPE Belo Jardim. Teve diversas especializações com os maiores e mais renomados professores de bateria do país, como Kiko Freitas, Oscar Bolão, Rafael Barata, Ramon Montagner, Christiaan Oyens, Germana Cunha, André Boxexa. 

Daniel Podsk também ministra aulas, faz gravações e atua como freelancer. Gravou o programa Som Brasil em Homenagem a Jackson do Pandeiro em 2011 (Rede Globo - RJ). Já se apresentou com grandes nomes da nossa música como Jair Rodrigues, Cascabulho, Silvério Pessoa, André Mattos, Maestro Duda, Cida Maria, Vasco Faé, Up town Blues Band, Josildo Sá, Gennaro, Maestro Forró, Nádia Maia, Camarão Sanfoneiro, João Silva, Arlindo dos Oito Baixos, Liv Moraes, além de atuar no meio gospel. 

Participou de eventos importantes como representante de Pernambuco, julgado pelos maiores nomes da bateria no Brasil - Carlos Balla, Cuca Texeira, Jorginho Gomes, Eder o Rocha, Alexandre Cunha, Gledson Meira -, feiras de música, eventos gospel, mostra internacional de música como percussionista regido pelo maestro Guilherme Bernstein, ao lado do maestro Wagner Tiso, acompanhou vários artistas e bandas, e ainda toca no cenário pernambucano em trio, quarteto e quinteto de jazz, sendo muito requisitado para atuar no gênero. Ele inclusive já recepcionou o trompetista norte-americano Wynton Marsalis e sua orquestra Lincoln Center.

 

Tem atuado em diferentes estilos musicais no estado de Pernambuco e no Brasil com diversos artistas, visando a versatilidade e também focando sua carreira no cenário do samba jazz e música brasileira, incluindo a regionalidade, de onde partiu a ideia de elaborar seu primeiro disco solo Relembrando - PE, tema principal deste bate-papo. 

Após lançar Daniel Podsk Quarteto - Relembrando PE, disco bem aceito pela crítica e por músicos renomados de todo o Brasil, o baterista já inicia uma nova produção ao lado do violonista Caio Fernando. Na entrevista ele detalha o set-up da bateria, comenta sobre ritmos, como foi a gravação, além do novo projeto e seus planos futuros.


Confira a entrevista:

Por que você optou por uma linguagem mais simples e até minimalista, em relação a escolha de instrumentos acústicos e o kit reduzido de bateria no seu disco e vídeos?

Olha o kit é de acordo com som que faço, acredito que com uma caixa já dá para fazer um som, mas é uma ideologia minha, o som está na mente (em nós) obviamente que precisamos de um kit para traduzir as ideias e nossas sensações, por tanto uso no disco (Relembrando PE) uma batera com um tambor a mais que nos vídeos que estão no ar em nosso canal do Youtube, no caso 10x7,5; 12x8; 14x14; 18x14 e caixa 14x5 (Gretsch USA Custom Walnut) o set que uso no vídeo que é uma Gretsch Catalina Club Street Mahogany Red Sparkle com bumbo modular de 16'x12', que ajusta até 16'x14' - 1/2', tom de 10'x6' e surdo de 13'x11' inclusive uso na última faixa do disco Relembrando PE, que é Mojave, do Grande maestro Antonio Carlos Jobim.
 

Qual foi o set-up e a batera utilizada na gravação do seu disco?

Nesse disco usei a bateria Grestch (USA) custom Walnut, com bumbo de 18'x14', tom de 12'x8' e surdo de 14'x14'. A caixa foi a Ludwing Supraphonic, edição limitada de 14'x5'. Já os pratos foram um hi-hat antigo da Zildjian, de 15'; ride de 22' K Constantinople Medium Thin Low, um K Flat Ride de 20' e um Thin Crash K Custom de 17'. E uma Gretsch Catalina Club Street Mahogany Red Sparkle com bumbo modular de 16'x12', que ajusta até 16'x14' - 1/2', tom de 10'x6' e surdo de 13'x11'. 

E para alcançar esse timbre, qual foi a afinação e captação do áudio para o CD?

Afinei os tambores em uma tessitura mais alta, na seguinte disposição: o bumbo em Fá, o tom em Dó e o surdo em Lá. A caixa afinei em Si bemol, com peles porosas Evans G1 e Remo ambassador. O bumbo com um abafamento externo na pele batedeira. Na captação, todos microfones condensadores, para trazer uma maior naturalidade ao som, pois o microfone condensador tem esse objetivo de captar geral e não apenas uma peça específica, como um mic dinâmico, por exemplo.

Apesar de já estar preparando outro projeto, os vídeos que você tem lançando em Quarteto fazem parte do repertório do disco. Comente sobre sua ideia de mostrar na prática esse trabalho.

Correto! Os vídeos que estão disponíveis no nosso canal do Youtube possuem um caráter 'divulgacional' com uma música do disco Relembrando PE, que é Luiza (valsa), e outras duas que são, um standard de jazz, Speak Low e Vera Cruz, do Milton Nascimento, que criamos um arranjo privilegiando nossa cultura pernambucana com um ritmo Baião sem perder a essência e sem tirar a brasilidade que a própria música já proporciona.
 

Você é de uma região do País muito rica em musicalidade e ritmos. Mesmo jovem, você está no meio musical desde criança.  Quando você enxergou que estava na hora de encarar um trabalho solo?

Em 2011, com 25 anos de idade resolvi gravar meu primeiro disco, pois já me sentia confortável para isso e com bastantes ideias... me incomodava bastante não poder tocar da forma que concebia determinadas músicas, a questão da instrumentação que queria para um determinado arranjo... e entendia que não poderia impor isso no trabalho dos colegas músicos. Logo após isso, dei uma parada no processo, pois havia me equivocado em alguns momentos da produção e só no início de 2014 retomei a produção, pois entendi que deveria terminar esse disco, o Relembrando PE e assim consegui chegar nesse resultado!

O disco revela sua intimidade com os temas selecionados e a forma como são apresentados. Você chegou a fazer uma pesquisa pontual e específica para gravar o CD, ou é fruto dessa sua vivência?

O disco, em seu contexto, traduz um sonho primeiramente de adolescente, pois quando iniciei meus estudos aqui em Recife, capital pernambucana, em 2002 já ouvia algumas das músicas que estão gravadas nesse disco. Com o passar do tempo fui influenciado demais pelo jazz, e o disco passou a enveredar por esse caminho, mas sem perder a regionalidade.
A pesquisa, ela de fato aconteceu no meu processo de formação como músico, pois achei que não deveria começar diferente, ou seja, um disco com uma textura jazzista sem perder a regionalidade e homenageando os grandes compositores da música instrumental de Pernambuco.
 

Pela qualidade da gravação e execução, assim como a importância de manter viva a música brasileira e pernambucana, você concorda que está na hora de mostrar seu trabalho além das fronteiras do Brasil? O que diz hoje, em relação a isso?

A ideia é divulgar esse trabalho para o mundo. Queremos de fato buscar recursos, parcerias para que isso se torne realidade, viabilizando também, através do disco, que já está sendo distribuído virtualmente por vários canais (Googleplayer, iTunes, Spotify...) onde podemos alcançar inúmeras pessoas do mundo inteiro. 
Com relação a shows, estamos tentando patrocínios com as empresas privadas e fundo de cultura para que esse projeto itinerante seja posto em pratica, pois acredito que esse disco (o show) precisa ser visto por povos que curtem a cultura jazzista e a regionalidade pernambucana, que está intrinsecamente ligada ao disco Relembrando PE e o Daniel Podsk Quartet.

O CD apresenta uma releitura da música Capivara, dos primeiros álbuns do mestre Hermeto Pascoal. Fale sobre essa escolha e como ela foi arranjada por vocês para a gravação.

A música capivara foi apresentada por um amigo americano (Gab Hall Rodrigues) do Arizona, que passou um ano aqui em Recife e também gravou no disco e, quando o conheci, ele falou que tocava uma música do Hermeto e havia criado um arranjo, e aí ensaiamos. E gostei, porque no arranjo tinha um solo de batera em um compasso 7/8. Aí percebi que a música por ser do Hermeto, um cara que tem uma história aqui com o nosso estado e a cidade de Recife e ainda mais por ser essa bela canção que Capivara é. Daí decidi gravar e o Hermeto liberou - ficou tudo lindo.

Pode adiantar alguma informação sobre a nova produção ao lado do violonista de 7 cordas Caio Fernando?

É um disco que tenho em mente e que já fiz uma pré-produção com músicas de minha autoria ao lado do grande violonista Caio Fernando. O nome do projeto é Som de Câmara, que caminha por um universo menos plugado possível e com privilegio em dinâmicas bem leves pois as canções traduz essa leveza e pureza nos acordes e melodias interpretados por nós. 
O disco terá 6 canções e algumas participações como oboé, fagote, acordeom, flauta e clarone. A bateria terá a função, além do ritmo propriamente dito, pensando em contrastes e fluência, priorizando os aspectos percussivos em geral, não apenas baterístico. Será um disco solo.

Planos futuros?

Penso em meu projeto social que momentaneamente encontra-se no papel, mas estou buscando um patrocínio junto ao fundo de cultura da cidade do Recife, que é o Batucando no Interior, um projeto que visa o encontro semanal com jovens carentes e de baixa renda do interior do estado de Pernambuco, trazendo para esses garotos o conhecimento de uma cultura rica em ritmos, instrumentos, música em geral e costumes da cultura Pernambucana. 
Posso citar meus projetos didáticos que é o Vassourinhas na Música Pernambucana, um método de baqueta vassouras (brushes) que viabiliza o estudo dos ritmos pernambucanos com enfoque também nos fundamentos e repertório a ser estudado e praticado. Viajar e buscar parcerias para o Daniel Podsk Quarteto divulgar o disco Relembrando PE e um DVD que pensamos em fazer com 6 músicas com uma das quais está no disco, porem com uma nova leitura e  novos arranjos. 
Não posso também deixar de falar do projeto Jazz para Nelson, que está em fase de pré-produção e em breve será lançado pelo Daniel Podsk Quartet.
 
 
 
DANIEL PODSK QUARTET: 

Bráulio Araujo - Baixo acústico
Daniel Podsk - Bateria  
Vasconcelos Jr. - Trompete
Amaro Freitas - Piano 
 

PARTICIPAÇÕES:

Trompetista - Fabinho Costa
Saxofonista e Maestro - Edson Rodrigues
Percussionista - Geroge Rocha
Pifano - Leonardo Araujo
Pianista (Norte Americano) - Gab Hall Rodrigues 
 

ASSISTA:

- Making Of da gravação do CD, Daniel Podsk Quartet - Relembrando PE
 
*Fotos: Divulgação

 
Assista na íntegra ao show gravado ao vivo no Espaço BNDES, no Rio de Janeiro em 24 de setembro de 2015:
 
 
Daniel Podsk Quartet Facebook | YouTube 



Repertório:

Baião para peça/Sofrendo baixinho - Tiago Motta e Fred Andrade
Subindo o morro - Amaro Freitas
Lamento sertanejo - Dominguinhos
Preto e branco - Daniel Podsk e Amaro Freitas
Chorando em PE - Luiz Guimarães
Luíza - Luiz Guimarães
Primeiro dia - Luiz Guimarães
Maracatu guerreiro - Riva Le Boss
Moajave - Tom Jobim
Vera Cruz - Milton Nascimento

Ficha técnica:

Daniel Podsk - bateria 
Amaro Freitas - piano 
Vasconcelos Jr. - trompete
Bráulio Araújo - contrabaixo

Produção - João Damaceno 
Fotografia - Amanda da Silva
Som e Luz - João Damaceno

  

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