Do Sul ao Norte do Brasil, conheça a caminhada do batera Airton Silva

16 de junho de 2015, por Rafael Ferraz
Nascido em 1976 na cidade de Sapiranga, no Rio Grande do Sul, o baterista Airton Silva é um especialista quando se trata dos ritmos do Norte aplicados à bateria.
 
Hoje casado e pai de um filho, Airton toma seu chimarrão no norte do país, em Manaus (AM), onde vive desde os 19 anos de idade. Baterista endorser de grandes marcas, tem patrocínios de baterias, pratos, baquetas e instrumentos de percussão em geral.

"Bom como eu sempre tomei chimarrão e até hoje levo pra todos os lugares comigo, então foi difícil escapar do apelido Gaúcho. Apesar da minha contrariedade no princípio, não tive como desvincular este nome da minha pessoa", explica o músico que estuda bateria desde que tinha 11 anos.
 
Até atingir a maior idade, ainda no Sul, tocou em bandas de rock e cantores de MPB locais e resolveu se aventurar na jornada de cruzar o país. Em contato com uma cultura diferente daquela que estava acostumado, sua musicalidade o levou a tocar com o cantor Afonso Rodrigues e Junior Lima.
 
Na sequencia, passou a integrar a banda do cantor Cileno, com quem tocou durante anos, paralelamente com outros artistas no estado do Amazonas, como Raulney de Carvalho, Lucilene Castro, Amilcar Azevedo, Márcia Siqueira, Torrinho, Fátima Silva e Zezinho Corrêa, entre outros.
 
 
Participou de festivais como músico da banda base, a exemplo do Festival Universitário, Festival do Sesi, Fecani e o Famusi. Baterista da Amazonas Jazz Band, já acompanhou grandes artistas nacionais e internacionais da música instrumental, com destaque para Vinícios Dorim, Proveta, Jeremy Pelt, Ed Sarath, Jonh Fedschok, Bob Mintzer e Chico Pinheiro.

Airton é professor de bateria há mais de 15 anos, 11 deles no Liceu de Artes e Ofícios Cláudio Santoro, instituição governamental que forma muitos músicos nas mais diversas áreas na capital amazonense. "Gosto de dar aula porque desta forma você revisita assuntos e se recicla, além do mais, aprendemos muito com os alunos e encontramos muitos amigos que permanecerão pela vida afora também", revelou. 
 
(Roberto Sion Trio, em 2011 | Foto: Divulgação) 
 
Durante sua caminhada, escreveu sobre ritmos do norte em revista segmentada de circulação nacional, sendo destaque em entrevista da mesma publicação, em 2013. "Pretendo lançar um método voltado para ritmos do norte e para a prática da bateria com enfoque mais musical, muitas vezes percebo que a prática do dia a dia do baterista está desconexa com a música como um todo, dificultando assim sua aplicabilidade e tendo desta forma pouco aproveitamento no resultado final."

Com uma grande lista de artistas que admira, ele cita nomes como, "Hermeto Pascoal, Toninho Horta, Sivuca, Pat Metheny, Richard Bonna, Michel Camilo, Michael Brecker, Herbie Hancock, Yellowjackets e por ai vai". Além desses, "Márcio Bahia, Jurim Moreira, Carlos Bala, Kiko freitas, Edu Ribeiro, Vinnie Colaiuta, Dave Weckl, Horácio El Negro, Steve Smith, Terry Bozzyo, enfim todos os grandes bateras que nos brindam com sua dedicação ao instrumento e a música!"


CONFIRA:

Quando se mudou do Sul para o Norte do país, você já tocava bateria. Como essa exposição de culturas tão distintas contribuiu em sua formação como baterista?

Comecei aos 11 anos a estudar bateria no Rio Grande do Sul, batucava desde cedo nas almofadas etc... (história de muita gente que começa a ter afinidade com ritmos e pulsações e a ouvir música com mais atenção). Aos 14 já tocava em bares e eventos - um dos cantores que lembro bem foi Mauro Bernardes, que na época já tinha disco gravado e tal...Tive a sorte de já começar tocando com músicos que tinham muita bagagem e me ensinaram muito. Ouvi desde cedo muita coisa boa, Djavan, Ivan Lins, toda galera do Clube da Esquina, Hermeto Pascoal etc....Também tive contato com a arte das vassourinhas logo no começo da carreira, pois tocava muita bossa nova e em muito lugar pequeno, o que despertou o senso de dinâmica e coesão sonora das partes da bateria. Ou seja, ter cuidado pra tirar um som equilibrado do instrumento, principalmente caixa e pratos.
 
 

Você se dedica à pesquisa dos ritmos e às diferentes raízes do Brasil. Como foi sua caminhada até tornar-se referência nos ritmos do Norte aplicados à bateria?

Foi através de um músico Manauara (Carlos Primavera ) que fui parar em Manaus, tocávamos juntos em alguns projetos. Um belo dia me falou que iria visitar sua terra, e peguntou se eu gostaria de ir. Prontamente respondi que sim, era uma época em que eu estava ávido por informação, queria de fato conhecer outras culturas e músicos, abrir horizontes. Como já vinha convivendo com este amigo do Norte, tive contato por osmose com a música regional nortista, sempre gostei de música 'swingada' e encontrei muito isso no Norte do País. Portanto não tive muito choque cultural do ponto de vista musical, mas muito no que diz respeito às tradições, hábitos e a forma de encarar a vida, que era bastante diferente da que eu estava acostumado.
 
 
 
Em relação ao brega, a toada do Boi de Parintins e o carimbó, que formam o tripé musical da Amazônia cultural e artística, como essas informações interferem, por exemplo, na hora de acompanhar ritmos onde a fusão não funciona tão bem quanto no jazz?

A música do Norte teve uma forte influência dos ritmos latinos como soca, merengue e cúmbia. Muitos elementos foram adaptados ao Carimbó, ao Beiradão, a Guitarrada, ao Brega, que são fortes expressões da música do Norte. Tive oportunidade de tocar com vários artistas de todas as vertentes desta cultura e cada um tem seu próprio "sotaque" musical, ao ponto que fica difícil expressar em palavras ou até mesmo escrever partituras exemplificando os elementos dessa música. Sempre falo nos workshops que são os ritmos simples complexos, que precisam de vivência para tocá-los bem, assim como todos os ritmos brasileiros né.

A música indígena assim como a africana, traz muito o tambor como fonte de expressão e isso foi muito importante para minha nova jornada musical, pois me trouxe mais pra perto das raízes, do tirar som, de explorar mais os timbres e formas de tocar um único tambor por exemplo. Acho de extrema importância o baterista estudar percussão de uma forma geral pois amplia muito seu arsenal fraseológico, dá um maior entendimento de melodias e de construção de levadas.
 
 
 
E o Guisado de Capivara, como foi a composição até a produção final?

A música Guizado de Capivara nasceu de Jam sessions entre amigos músicos com os quais trabalho há muito tempo, Jonilson Reis (Labamba) tecladista compositor do tema, e Hudson Alves, contrabaixo. Fomos amadurecendo a ideia do arranjo coletivamente e acertando os detalhes. No vídeo em que toco este tema tem vários convidados especiais como Vinícios Dorim (sax), Daniel D`Alcântara (trompete) e Jadão (contrabaixo). Tive o privilégio de tocar com estes grandes músicos em shows em Manaus.
 
Airton Silva interpretando o tema "Guisado de Capivara" no Estúdio Supersônico:
 
  
 
Como estão os trabalhos com a Amazonas Jazz Band?

Trabalho na Amazonas Jazz Band há aproximadamente 10 anos. Com esta big band do Estado do Amazonas já tive o prazer de dividir o palco com grandes nomes do instrumental nacional e internacional, entre eles: Proveta, Vinícios Dorim, Maestro Branco, Altair Martins, Gilson Peranzetta e Mauro Senise - com quem gravamos um CD ao vivo no Teatro Amazonas - Jonh Fedshock, David Liebman, Jimmy Greene, Ed Sarath, Felipe Lamoglia, entre outros. Estamos apresentando um concerto de latin Jazz com arranjos de grandes nomes do gênero.

Quais são suas atividades atualmente? 

Atualmente além dos trabalhos com a Amazonas Jazz Band e como professor, faço parte da Orquestra de Beiradão do Amazonas que está finalizando o primeiro CD resgatando a música instrumental do Norte, com composições próprias e também releituras de músicas do Teixeira de Manaus, grande saxofonista deste gênero e que fez muito sucesso na década de 80. Além disso estou começando a gravar meu trabalho solo e amadurecendo um projeto para um DVD.


Assista abaixo Voo Livre:

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