Rômulo Boettcher e sua arte de fazer instrumentos de percussão

21 de janeiro de 2015, por Rafael Ferraz
Nascido em 1988 no município de Joinville (SC), o músico Rômulo Boettcher é o novo entrevistado do site Batera. Professor de percussão, bateria e musicalização infantil, neste bate-papo sobre a arte de fabricar instrumentos artesanais de percussão na oficina de seu pai, o jovem explica que herdou o gosto pela música através do seu avô, bandonionista de influências germânica, Bertholdo Ernesto Boettcher.

Filho de Romeu Antonio Boettcher e Tereza da Rosa, que cantavam em corais folclóricos e nas igrejas onde até hoje atuam em atividades musicais, Rômulo percorreu um grande caminho até começar a fazer seus próprios instrumentos de percussão -- atividade que para ele se resume em "um estado de espírito". "Ja fiz, xequerês, afoxé, agogô de coco, agbê, zabumba, tambor trovão, pau-de-chuva, flautas de bambu e de PVC, e inúmeros outros", diz.

O joinvilense ganhou um violão aos 6 anos de idade, quando surgiram os primeiros acordes nas aulas em uma igreja perto de sua casa. "Na verdade foi apenas o inicio dos estudos", comenta Rômulo que, aos 18 anos, despertou a vontade de ser músico profissional -- na época já tocando baixo na igreja. "Com 19 anos comecei a estudar em um conservatório aqui da cidade e fazer algumas aulas particulares", completa.

Agora com  26 anos, o percussionista já acompanhou grandes músicos da MPB da cidade de Joinville como, Dentinho Arueira e Carlos Alberto, entre outros. Junto com o sonho de ter a música como profissão, segundo ele, veio a curiosidade e a oportunidade de estudar e explorar o universo da percussão, "no qual sou apaixonado até hoje", disse. O principal motivo de começar a construir os instrumentos de maneira artesanal, foi o valor excessivo dos industrializados. 

Na pequena oficina com algumas ferramentas do pai, começou a fabricar o seu primeiro instrumento, um pau-de-chuva. Confessando que, depois de "várias tentativas fracassadas", começaram a surgir os primeiros Agbês, Xequerês, Derbak, flautas de bambu e PVC, Zabumba e outros, Rômulo explica que reutiliza peças de instrumentos velhos, materiais reciclados e cascas. 

Assim, com materiais reciclados, ele realiza oficinas de construção de instrumentos alternativos em escolas públicas da cidade, desde 2013. O intuito é despertar o interesse das crianças apresentando uma sonoridade longe do universo de sons eletrônicos e sintetizados. "A partir da ideia de sons com materiais naturais e reciclados como, tubos de PVC, catutos, bambus, mola... comecei a trabalhar com grupos de teatro e contação de histórias, fazendo sonoplastia ao vivo com os instrumentos, em paralelo com a música." 
 

Acompanhe o bate-papo:

Você começou a fabricar os instrumentos na oficina de seu pai? Como?
 
Sim, ele sempre trabalhou com mecânica (torneiro mecânico), profissão que ele se aposentou. Ele tem a oficina para uso e manutenção doméstica, mas como às vezes as máquinas ficam muito tempo sem uso, comecei a usá-las pra confeccionar alguns instrumentos, após inúmeras tentativas fracassadas, pesquisas, experimentos... A oficina fica na casa dele, em Joinville.
Sempre dei muito valor ao artesanato. Mas o que mais me incentivou foram os preços dos industrializados. Instrumentos simples com preços absurdos. Aí, como eu tenho acesso às ferramentas do meu pai, e claro, com as dicas dele de como usá-las, tomei gosto e me empolguei.
 
Você vende esses instrumentos?

Já recebi encomendas e até vendi alguns, mas, não fabrico em séries. Por ser artesanal, exige muita paciência e dedicação em cada um. Por isso a demora na fabricação. E também são poucas pessoas que fazem questão do artesanal.

Quais são suas atividades principais atualmente?

Hoje, continuo fazendo releituras, inventando e pesquisando sons e materiais para que eu possa aprimorar cada vez mais essa ideia e fazer com que todos possam tocar seus próprios instrumentos. E quem sabe um dia, trocar o som sintetizado e computadorizado pelas "Vozes da natureza".

O que seriam as "Vozes da Natureza"?

É uma oficina de construção de instrumentos de efeitos, usados em sonoplastia ao vivo de peças de teatro, contação de histórias e em musicais. Essa ideia foi criada para incentivar todos a construírem seus próprios instrumentos e aprenderem a tocar criando sensibilidade e exercitando percepção, ao invés de usarem sons sintetizados e eletrônicos, utilizando materiais que ganhamos da natureza, como sementes, conchas, bambu.

Você também desenvolveu outro projeto, o "Jardim Sonoro". Como é esse trabalho?

Em 2014, através de um projeto cultural com o Centro de Educação Infantil de Joinville, tive a oportunidade de construir um 'Jardim Sonoro'. Assim que instalados os instrumentos, as crianças passaram a realizar atividades musicais durante todo o ano letivo. Fui convidado por uma professora do CEI a construir alguns instrumentos com o tema 'água da chuva'. Então decidi utilizar apenas os tubos de PVC. Foram fabricados vários instrumentos de percussão como, 'chinelofone' (tubos tocados com chinelos), 'tubofone', 'cano de chuva' (pau-de-chuva de cano) entre outros... foram instalados em um jardim nos fundos da escola em formato de círculo, onde os professores fazem as atividades sonoras com as crianças.

Sobre os materiais utilizados, principalmente madeira, como é feita a escolha?

As madeiras são escolhidas de acordo com o que eu for fazer. Não a tiro da natureza, geralmente reutilizo principalmente o que é jogado na praia, desde bambus, compensado naval, tábuas...

O que a fabricação desses instrumentos significa para você?

Toda arte é uma imitação da Natureza, cores, sons, movimentos. Conseguir aproximar o som da natureza com instrumentos feitos por você, é um sentimento sem igual, é emocionante. Por isso tudo que aprendo, quero passar adiante, compartilhar e multiplicar ideias, pois, o conhecimento só tem valor quando passamos adiante. Eu acredito que assim que enobrecemos.

Veja as fotos de alguns instrumentos fabricados por Rômulo, na Galeria de Imagens, abaixo:

Galeria de imagens

Comentários

Veja também: Todas as entrevistas