Tambora 3: Alexandre Cunha, Guilherme Sanita e Zeca Vieira exaltam ritmos brasileiros

12 de novembro de 2015, por Rafael Ferraz
Formado em janeiro de 2015 com a proposta de explorar e difundir elementos, ritmos e sonoridades brasileiras, o Tambora 3 é assunto desta nova entrevista do site Batera. Idealizado pelo baterista e educador Alexandre Cunha - músico já entrevistado por aqui, o trio conta ainda com os bateristas Zeca Vieira e Guilherme Sanita. 

Baterista que representa o país nos maiores festivais internacionais de jazz, Alexandre Cunha, lançou seu quarto disco da carreira, 'Brasil Plural', em 2014. O álbum faz uma homenagem estilizada e jazzística à pluralidade dos ritmos brasileiros, de maneira única e bem acompanhado de um grupo com projeção internacional. 

Agora, Alexandre Cunha conta com dois bateras do interior paulista, Guilherme Sanita e Zeca Vieira, em composições que mesclam elementos de diversas regiões do Brasil, "tendo em cada peça uma matriz rítmica como ponto de partida ou tema principal", segundo biografia. Através de gêneros como o Samba de Partido Alto, Samba-Funk, Baião e Afro-Beat, o grupo propõe a desconstrução desses elementos musicais a partir de arranjos não-tradicionais e das vivências musicais dos integrantes. 

De acordo com o Tambora 3, é nessa perspectiva que o trio busca dialogar entre os diferentes ritmos e suas vertentes mais conhecidas no Brasil com elementos da música estrangeira, num trio de baterias que tem chamado atenção inclusive nos EUA. É o caso do vídeo Tambaião - publicado em rede social, o trabalho já soma mais de 100 mil visualizações e 2 mil compartilhamentos.
 
 
Com informa sua biografia, a apresentação do trio traz uma atmosfera descontraída (confira no vídeo abaixo). "Com isso, solos, melodias, dinâmicas e interações com o público compõem todo o discurso artístico do grupo, que pretende não só atingir o público de bateristas mas também ouvintes e apreciadores de música em geral criando assim um espetáculo acessível a todos."


Confira a entrevista com o trio

De quem surgiu a ideia de explorar e exaltar elementos, ritmos e sonoridades brasileiras?

Bom, como eu (Alexandre Cunha), fui quem teve a ideia de montar o grupo, em primeiro lugar acho importante contextualizar a resposta e também contar a história do trio. A valorização da sonoridade brasileira é uma coisa que eu sempre trouxe no meu trabalho. Então, naturalmente vi no Tambora 3 mais uma oportunidade de dar segmento à minha linha musical, ao mesmo tempo que esta formação traz novidades à minha trajetória e até mesmo no mundo.
 
 
A presença de mais de uma bateria na formação de um grupo não é inédita para mim. Integro também o "Brazilian Duet", com o renomado baterista Ramon Montagner. Atualmente o dueto possui pouca atividade, já que nós integrantes residenciamos cidades distintas. Como acho importante a proposta de novos desafios ao longo carreira, decidi convidar dois outros bateristas: Guilherme Sanita e Zeca Vieira e formar o Tambora 3.

Quais são os principais gêneros e ritmos abordados pelo trio?

Nos baseamos nas diversas frentes e elementos da música brasileira, mas sem deixar de lado estilos estrangeiros. Exemplificando, temos o "Tambaião" que é um baião bem estilizado e todo desconstruído que lançamos há alguns meses. Também lançamos nosso segundo vídeo que é um samba de partido alto que exigiu bastante empenho pelo nível de coordenação com um ostinato que se repete constantemente. Além dos dois vídeos, temos outras composições que estão em processo de composição e gravação. Para quem se interessar, disponibilizamos em nossa página do facebook um pequeno trecho de umas dessas peças inéditas gravado em nosso show de estreia. Podemos adiantar, que se trata de um samba batucada, baseado em samba-enredo e com vários recortes musicais. Além disso, a disposição que exploramos, em que um toca sentado e os outros dois em pé (usando somente um kit de bateria), sugere uma outra abordagem no instrumento.

Por que três bateristas? E qual relação entre vocês três?

Na verdade, nos baseamos no "Playmobeat", um famoso trio de bateristas. Já assistimos vários vídeos deles e gostamos da proposta que assumem.
Entre nós sempre existiu muito respeito e amizade. E também, no passado, nossa relação já foi a de professor-aluno, já que eu (Alexandre Cunha) fui professor de ambos.
Nós (Guilherme Sanita e Zeca Vieira) achamos incrível estarmos tocando com um ex-professor, que é e sempre foi uma grande referência para nós. 
 
 
Desde janeiro até agora, como tem sido os trabalhos e quais são os planos e próximos passos desse projeto?

Desde o início, o trabalho tem sido muito árduo. Começamos sem saber como o projeto iria acontecer e logo no início percebemos o quão difícil foi combinar os padrões em três, principalmente entender a "respiração" de cada um. Atualmente ensaiamos duas vezes por semana, com 4 horas de duração por ensaio. Com bastante seriedade, é aquele ensaio que fazemos render cada momento e fazemos apenas uma pausa breve de 10 minutos para não "pirar".
Como dito, temos dois vídeos finalizados e fizemos um show de estreia, no "Percussion Show". Em nossos próximos passos, vamos gravar nossas peças inéditas a fim de compor um DVD. Com o material consolidado, esperamos começar de modo mais intenso nossas apresentações. Tanto em território nacional, quanto internacional, já que a música brasileira é tão rítmica e por isso tão atrativa.

Apesar da indiscutível qualidade e importância desse trabalho ao resgatar a riqueza dos mais autênticos ritmos brasileiros, são poucos os lugares - locais como bares e casas de shows, que têm estrutura para receber este tipo de projeto. Onde o trio pode e tem se apresentado?

Inicialmente, não pensamos lugares específicos em que podemos nos apresentar. Em primeiro lugar, achamos importante que todo trabalho seja uma realização pessoal, e é assim que é o Tambora 3. Encaramos a aceitação do público e a oportunidade de apresentações como consequência do projeto. Este é trabalhado de forma a unir o técnico com o performático. Partido deste raciocínio, temos uma proposta de apresentação bem parecida com o Blue Man Group, em que não só bateristas assistam, mas sim o público geral que aprecia música e performance. A ideia é criar um espetáculo musical, em que qualquer pessoa (tanto instrumentista, quanto leiga) possa ver e saia satisfeita com o resultado. 
 
 
A partir dessa proposta, acreditamos que no circuito nacional e internacional podemos nos apresentar em teatros, casas de show, festivais e universidades. Tem vários festivais de bateria correndo pelo mundo, até mesmo festivais de jazz.

Com a proposta de atingir o público de bateristas, mas também ouvintes e apreciadores de música em geral, como o grande público tem recebido o trabalho de vocês? Como foi a estreia no Percussion Show?

Desde que estreamos com nossos vídeos, há um feedback muito positivo dos ouvintes, de leigos e bateristas. Não estamos desenvolvendo músicas para virtuoses em bateria. Temos um cuidado para que todas as criações sejam bem musicais e achamos que isso se reflete nos comentários dos ouvintes. Já recebemos muitos elogios, mas de modo geral o que resumo a receptividade de quem conhece o projeto, é a surpresa de que três baterias juntas não necessariamente formam barulho, mas podem ganhar autonomia dos outros instrumentos.
Nossa apresentação no Percussão Show também foi muito bem recebida. Como ressaltado, nosso objetivo é criar um show musical que divirta e agrade todos. Obviamente, nossa formação atraí os bateristas, e como o evento era destinado à essa parcela de músicos, fomos muito bem recebidos.
 
 
Como é o processo de composição para mais de uma batera, no caso 3? De quem são as composições, e qual contribuição de cada um?

Não há regras para o nosso processo de composição. Temos peças prontas e outras ideias guardadas, e todas se distinguem de como foram feitas. O que está disponível para o público, foi basicamente ideia do Alexandre. Eu (Alexandre Cunha) normalmente gravo uma levada, e depois outra, até ter três linhas. Depois levo as ideias para o ensaio, e trabalhamos juntos até termos mais ideias. As ideias iniciais partem de um integrante, mas no final as composições são coletivas de uma forma geral.

Como é sua "linha de raciocínio" para improvisar na linguagem de cada gênero musical?

Qualquer baterista precisa conhecer e vivenciar o gênero que se toca. É por isso que, normalmente, para nós é muito mais fácil tocar música brasileira do que para os estrangeiros. Nós temos isso agregado na nossa cultura/vivência musical. Mesmo não ouvindo diretamente, muitos músicos brasileiros têm esse contato com a música nacional em diversas situações, como assistindo à TV ou em qualquer outro meio de comunicação e até mesmo passando em uma rua que tem uma batucada. A música está em todos os lugares! Achamos que para improvisar nesta linguagem, é preciso assimilar o estilo. Esse é um grande desafio como professor. Eu (Alexandre Cunha) vejo muito isso: se estou com um aluno "roqueiro" e peço para ele improvisar um samba, ele não consegue.
Partindo para um nível técnico, é preciso conhecer os fraseados mais típicos de cada gênero, gerar independência rítmica, e saber o que você pode fazer dentro daquele um estilo. Acredito que depois destas "barreiras técnicas" é essencial vivenciar o ritmo: sempre escutar, estar com a mente e os ouvidos abertos. Também é importante que o baterista tenha um "filtro" estético de quais escolhas, em um determinado contexto, podem soar melhores do que outras. Neste âmbito, o tempo e a vivência contribuem constantemente para o aperfeiçoamento do trabalho.


ASSISTA ao grupo Tambora 3 - em Tambaião:
  
 
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Confira a partitura do primeiro groove de Tambaião:
 
 

Conheça os bateristas que dividem os palcos e composições do Tambora 3 com Alexandre Cunha:

O baterista Zeca Vieira nasceu no dia 28 de agosto de 1994, em Campinas (SP). Iniciou seus estudos com o baterista Alexandre Cunha. Aos 14 anos de idade venceu o concurso de bateria "1° Guitar Music Festival Drums", realizado em Ribeirão Preto (SP), na categoria "até 17 anos". No ano seguinte, foi um dos classificados da "Batalha de Bateras", realizado na Expomusic, São Paulo. 
 
 

Em 2013 foi contemplado com a aprovação para graduar-se em Música Popular, com especialização em bateria, pela Unicamp - Universidade Estadual de Campinas, onde atualmente ainda conclui seus estudos. Além do Tambora 3, faz parte do Trio X, que arranja e compõe músicas instrumentais e que também lançará seu material em 2015. Também é professor de bateria em aulas particulares. Seus principais gêneros musicais são a música brasileira em geral e o Funk. Confira seu canal no Youtube, clicando aqui.

Também nascido em Campinas, o baterista Guilherme Sanita é de 24 de junho de 1990. Possui Bacharel em Instrumento (Bateria) pela Unicamp, e tem experiência na área da performance e educação. Além disso, atua também como professor particular de bateria.
 
 
Os gêneros e estilos musicais em que se sente mais confortável são, a música instrumental brasileira, música latina (cuba) e funk. Entre seus principais grupos e trabalhos realizados estão, GuSiqueira e o Offbeta (canção brasileira, axé experimental); a Incrível Banda do Mestre Jonas (Funk, Soul, Black Music); o Asa Trio (Música Instrumental Brasileira, jazz); e o Tambora 3 (Música Instrumental Brasileira, Experimental).
 
 
ASSISTA também ao vídeo de Chimbal Partido: 

 
 
 

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