A música é uma máquina do tempo

25 de outubro de 2011, por Adriana Pivatti
Espalhe cartazes por diversos pontos da cidade do Rio de Janeiro com os dizeres: "Alguma música já marcou sua vida? Cante e conte sua história". Reproduza a mensagem na internet e nos jornais. Depois, selecione aqueles que espontaneamente se oferecerem para a empreitada e registre-os em vídeo, a capella (cantando sem acompanhamento). Selecione as 18 melhores histórias. O resultado é o documentário "As canções", do cineasta Eduardo Coutinho, um dos concorrentes à mostra competitiva do Festival do Rio 2011, que acontece até o próximo dia 18.
 
"Além de escolher as histórias mais fortes, fiz questão de ignorar meu gosto pessoal com relação às músicas. Não tive preconceito", conta Coutinho, também diretor de "Edifício Master", "Jogo de cena" e "Moscou".
 
Geralmente anexadas a episódios tristes do passado, as canções, que vão desde Roberto Carlos ao repertório composto pelos próprios entrevistados, trazem um traço em comum, segundo o cineasta.
 
"A música te transporta para outro lugar, para outro mundo, para outro tempo. Clássica ou brega, é uma máquina do tempo. E esse tempo é sempre o passado", conclui o diretor, com base nos dois meses de pesquisa e no total de 237 depoentes.
 
Bem humorado, diz que não participaria do filme por não saber a resposta sobre a própria indagação: "Além disso, eu canto muito mal".
 
G1: Qual foi o principal critério para selecionar as 18 pessoas incluídas no filme?

Eduardo Coutinho: Além de escolher as histórias mais fortes, fiz questão de ignorar meu gosto pessoal com relação às músicas. Não tive preconceito. Até comemorava quando entrava uma música mais brega.
 
G1: Que lições você tirou depois de ouvir tantas músicas e histórias?

Coutinho: A música faz com que quase todas as pessoas se lembrem do passado, destaca um sentimento de reconstrução. Então digo que o passado é o presente. O passado nunca passa. A música te transporta para outro lugar, para outro mundo, para outro tempo. Clássica ou brega, a música é uma máquina do tempo. E esse tempo é sempre o passado. Por isso, a canção não vai morrer. A "canção" a que me refiro é a música junto com a letra. Isso não vai acabar nunca.
 
G1: Algo o surpreendeu?

Coutinho: Sim. Fiquei besta em saber que a obra do Legião Urbana tem tanta penetração popular. “Pais e filhos” foi citada por duas pessoas. E as histórias baseadas nesta música eram muito poderosas. Só não entraram na montagem final por conta da duração do filme. Uma terceira pessoa ainda cantou outra música da banda. Vou inclui-las nos extras quando editar o DVD. Quero incluir pelo menos oito personagens no DVD, mas que ficaram de fora do filme.

G1: Há um número maior de mulheres entre os depoentes selecionados...

Coutinho: Porque a mulher é outro ser humano. Se entrega, revela seus fracassos amorosos. O homem não, nunca conta quando é "corneado", traído. Por conta disso, cheguei a ficar com medo de restarem apenas mulheres na edição final.
 
G1: E apenas um jovem...

Coutinho: Porque jovem não vive nem revive. Quando um jovem diz que rompeu com alguém, já corre para arrumar outro no dia seguinte. Mas isso muda depois dos 30 anos.
 
G1: Grande parte das histórias trata de alguma perda ou alguma dor. Você chegou a se emocionar em algum momento?

Coutinho: Não. Não chorei em nenhuma das entrevistas. Procurava sempre manter a clareza para o público entender as histórias. Porque, às vezes, pode fica muito confuso. Mas sempre com frieza. Além disso, sabia que as pessoas iriam se sentir mais aliviadas depois de contarem aquelas histórias. E chorar junto iria atrapalhar. É um filme, mas, para elas, foi como um tipo de terapia.
 
G1: Se participasse do seu próprio filme, cantaria o quê?

Coutinho: Ah, eu não tenho isso. Já me perguntaram isso outras vezes. Pensei, mas não sei a resposta. Além disso, eu canto muito mal (risos). 

Fonte: G1

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