Kit de Pratos Ziltannan

15 de setembro de 2008, por Ricardo Goedert

A Ziltannan é uma marca de pratos fabricados no Brasil, pela Weril, empresa de vanguarda em instrumentos e acessórios para, sopro, orquestras e muito mais. Os momentos áureos da marca de pratos Ziltannan foram nos anos 60, 70 e 80. Nesta época, mesmo com o escasso acesso às novas tecnologias, materiais e produtos em geral, eles conseguiram se destacar muito bem. Não é à toa que a marca é muito bem lembrada até hoje. Acho que quase todos nós bateristas, temos alguns amigos que sempre comentam, “Ah...àquele meu Ziltannan” ou “Você tem que ouvir o som do Ziltannan de não sei quem”, e por aí vai.

Voltando ao presente, em meio a um mercado totalmente competitivo, rotativo e até certo ponto cruel, a Ziltannan, depois de alguns anos quase sem fazer nada muito enfático para mercado baterístico, retorna com o kit de pratos Ziltannan B8Pro. Devo confessar que logo de cara, não fui muito com a estratégia do nome B8Pro, e outras bobeiras do mundo “design-marketeiro”, coisas que não vêm ao caso aqui, afinal vamos falar do que estes pratos representam hoje, não apenas do que representaram no passado.

O kit

O público alvo para este kit, é a galera semi-profissional, iniciante ou mesmo os avançados, que querem ter pratos legais pra ‘botar’ na rua sem muita neura. Afinal, são poucos os corajosos que saem com os seus K, HH e 2002 rodando por aí, pra ganhar dinheiro de pinga e correndo risco de ser assaltado.

O Kit vem bem acondicionado em uma bela Bag, que protege os pratos de maneira bem convincente e eficiente.

O Bronze

Os pratos do nosso teste, como o nome mesmo diz, são confeccionados em Bronze B8, a liga mais utilizada em pratos nacionais e em pratos gringos mais “econômicos”, exceto a Paiste, que utiliza esta liga para fazer 90% dos seus pratos, dos mais baratos aos mais caros, e o resultado final todos nós sabemos, com B8 eles fazem incríveis pratos top. Jamais podemos torcer o nariz, de cara, quando ouvimos falar em Bronze B8, pois mesmo com esta liga, hoje meio injustiçada, podemos achar ótimas surpresas, não apenas em PAISTE top, mas bons pratos nacionais, econômicos e muita coisa vintage, resumindo toda a paródia, nem só de Bronze B20 é feito um baita som de prato!

O Bronze B8, tem a característica (que pode variar dependendo do modelo e marca) de ser uma liga mais dura, menos maleável, com maior incidência de freqüências agudas e decay mais curto, se comparada ao Bronze B20, que normalmente “abre” mais fácil e tende puxar mais para o grave.

Acabamento dos Pratos

A coloração dos pratos do kit, segue o padrão meio avermelhado dos B8 tradicionais. O martelamento é semi manual e linear, em formato de pequenas bolinhas. Percebi um martelamento mais visível apenas na parte superior dos pratos. A usinagem (sulcos, ranhuras) não são muito fundas, tentando assim elevar a durabilidade dos pratos e ao mesmo tempo, não deixando de ter uma usinagem básica, pois assim consegue-se dar uma “limpada” no som do prato, definindo melhor o seu timbre.

O que mais me chamou a atenção é o seu verniz. Na própria Ziltannan eles chamam o prato de laqueado. De fato é o que parece, o verniz final é bem grosso, parecendo um esmalte incolor. Honestamente não achei isso muito legal, marca o prato muito facilmente e durante o uso, nota-se mais claramente os arranhados, toques e desgastes do uso, porém nada que estrague a proposta musical deles.

O Som

Vamos falar do que mais interessa para maioria das pessoas, o som. Falando em termos gerais, sobre o kit, posso dizer que o B8pro da Ziltannan cumpre bem a sua proposta, e chega pra brigar de igual pra igual com muitos pratos de mesmo valor e até alguns mais caros que ele. O set todo casa bem, nada destoando demais, há um bom equilíbrio e harmonia em sua sonoridade, levando sempre em consideração a proposta do produto para o mercado, ou seja, não temos como exigir perfeição nesta faixa de valor e nicho de mercado.

Crash Medium

O prato de ataque foi classificado pelo fabricante como medium, de fato na espessura até posso considerar como tal, mas na sonoridade senti o prato de heavy para medium. Creio que optaram por essa forma, devido a maior durabilidade que um prato de ataque mais espesso pode proporcionar, porém noto geralmente que pratos de 16” com espessura maior, raramente soam bem como um de 17” em diante, por uma simples questão de física, uma mísera polegada faz uma enorme diferença em uma espessura medium heavy em diante. O prato de ataque do Kit, tem um timbre predominantemente agudo, bom volume, mas decay muito curto. Considerei o prato relativamente bem explosivo, mas não o senti muito definido, principalmente ao tocar mais fraco, o som não abre muito (o que já não é novidade em alguns pratos nesta liga), não há uma boa dinâmica para se tocar em situações de baixo volume, mesmo considerando, que o prato não tem esta como função principal, porém um pouco de versatilidade não faz mal a ninguém, ainda mais em um kit básico de pratos. Devo destacar que para quem toca rock ou precisa soltar um pouco mais o braço, o prato vai atender muito bem. Com mais força ele se mostra um pouco mais agressivo e responde bem. Pra ele cair na minha graça, poderia ter um pouco mais de sustein. Como um todo, o crash não prejudica o bom rendimento do setup como um todo, ele até cumpre bem o seu papel, ficando ainda melhor se for casado com outros pratos de ataque.

Ride Medium

O ride do kit é bem legal, possui uma espessura média começando a puxar pro heavy. Já toquei em diversos kits nesta faixa de preço, e não posso me omitir em dizer, que é um ride acima da média. Seria ainda melhor se a sua cúpula não fosse tão controlada no volume. Creio que um pouco menos ou nada do esmalte original do prato naquela região, ou a simples ampliação do seu tamanho, faria com que a cúpula gritasse bem mais, com mais definição e brilho. No restante, o prato funciona de maneira bem versátil, atende bem os mais variados estilos. O ping (condução com ponta de baqueta), tem boa definição, nem agudo demais, nem grave. Se ouve bem as notas, não as embolando muito mesmo em situações de maior volume. Ao crashear ele abre bonito, mas de maneira bem discreta, o decay é bem curto, mesmo sendo um prato maior e não tão espesso. Aqui eles acertaram mais do que no crash, ofereceram uma melhor versatilidade, para atender bem do Rock ao Samba.

Hihat Medium (Chimbal)

O hihat foi o prato que mais me chamou a atenção. O prato de cima (top) tem espessura média e o inferior (bottom) de média para heavy. Adorei este prato, sem dúvidas ele cabe muito bem em um kit de pratos mais top, ele não faz feio e briga de igual pra igual com muitos hihats mais caros do que ele. Quando fechado, o prato emite um timbre sequinho, agudo, limpo e cristalino, um prato cheio pra galera que gosta de samba, funk, reggae e pop. Ao ser tocado aberto, o prato mostra as suas garras e emite um som aberto, com bom volume, preenchendo bem as levadas mais pesadas, uma ótima opção para se tocar Rock e Metal, porém nada tão estrondoso e pesado, mas sim cheio, definido e encorpado. O som de pisada (chick) é legal, sequinho e bem cortante, aparece fácil sem precisar pisar forte demais. Sem dúvida acho que aqui, o bendito verniz da Ziltannan caiu super bem! Acertaram em cheio!

Comparando com os lendários Ziltannans

A maior dúvida, principalmente para os mais experientes, que têm ou já tiveram Ziltannan, é, será que lembra os antigos?! Para isso convidei o Bimbo, luthier com 44 anos de bateria nas costas (35 anos como músico e 25 como luthier). Ele já foi consumidor de Ziltannan há décadas atrás, tocando anos e anos em bandas de baile Brasil afora. Ele mais do que eu, pode falar sobre o assunto e traçar um paralelo entre o passado e o presente.
Ao tocar, ele de fato já sentou ciente que a proposta deste kit é outra, não era para se comparar com os vintages, mesmo sendo algo quase inevitável. Ele de fato não se surpreendeu com o crash, para ele, ficou devendo bastante em relação ao ride que ele considerou acima da média. Assim como eu, Bimbo também adorou o hihat, mesmo sendo um outro público, alvo de mercado e valor, pode ser considerado um prato profissional. O hihat foi o prato que mais retratou o ótimo nível dos lendários Ziltannans, ou seja, considerando o grau de exigência de alguém tão experiente quanto o Bimbo, o kit B8pro Ziltannan agradou o suficiente para ser considerado um produto de destaque em meio a tantos concorrentes com a mesma proposta.

Conclusão

Considerando a relação custo x benefício, mercado de destino e a proposta do fabricante, o kit todo passou pelo nosso crivo com tranqüilidade. A sonoridade como um todo é acima da média. Sem dúvida temos aqui um kit que chegou pra brigar bonito no mercado, não sendo apenas mais um mero produto a disputar uma fatia já tão “prostituída”, mas sim sendo de fato uma boa opção. Fico feliz pelo retorno mais ativo da Ziltannan ao mercado, e torço para uma rápida ampliação da variedade dos seus pratos, com mais modelos, medidas e sonoridades. Que venham logo os pratos para a ampliação da linha B8Pro e acima de tudo, que venham pratos cada vez melhores como os lendários 5 Estrelas, para a reconquista do público mais avançado, o que é algo ainda mais delicado e difícil, mas não impossível, quando se busca fazer o melhor possível, dentro das nossas limitações.

Preço Sugerido R$ 930

Um pouco sobre a História da Ziltannan

O nome Ziltannan, é de origem Árabe, foi formado com a junção de 2 palavras, Zil que significa Pratos e Tannan que significa sonoro.

Com o surgimento do Jazz, na década de 30, iniciou-se um grande crescimento no mercado de baterístico, pra variar, o Brasil ainda caminhava em passos lentos. Os músicos mais antigos, sempre tocam na sofrível dificuldade de se conseguir bons pratos, baterias, ferragens, materiais de estudo e afins naquela época. Porém, impulsionados por tal crescimento, surgia no mercado brasileiro, no final da década de 50, os pratos Ziltannan para bateria, que logo de cara, competiam de maneira louvável com os famosos pratos Turcos da época, quase nunca vistos por aqui.

A partir de 1962, os pratos Ziltannan ganham rapidamente o reconhecimento internacional, sendo recebido na Argentina, EUA e Europa com muito entusiasmo, começando a atender bem o mercado interno e fazendo bonito no exterior.

Em 1969, diante do sucesso nacional e internacional, chega ao mercado o Ziltannan 5 estrelas, lendário e amado modelo, procurado até hoje por bateristas daquela época, ou para curiosos que gostam de produtos vintage.

Segundo o fabricante, o bronze de hoje é o mesmo utilizado nas décadas passadas, com material e forma de fabricação exclusivas, sob processo idêntico aos dos pratos Turcos.

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